11.5.08

FILMES GAYS

Muito da educação sexual e, principalmente, sentimental de um homossexual passa pelo conteúdo dos filmes pornôs gays. São neles que um certo "manual", como diz o crítico Boris Transar, em seu excelente blog impróprio para menores (http://boristransar.blogspot.com/), pode ser entendido e repetido "ad infinitum" na famosa seqüência: preliminares, penetração e gozo.
Como os viados na televisão ainda hoje se apresentam sem açúcar, sem afeto e sem beijo, os filmes pornôs acabam sendo a versão gay dos catecismos de Carlos Zéfiro, que tanto educaram a juventude reprimida das décadas de 1950 e 1960.
A pornografia heterossexual cumpre outra função. Um amigo inglês, que faz a classificação desses filmes para todo o Reino Unido, me contou que muitas fitas pornôs héteros colocam a mulher numa posição deprimente. Em um deles, o cara fazia uma omelete dentro da vagina da atriz, tratando-a como um liquidificador. Esse amigo, hétero e bem-resolvido, me chamou a atenção para um certo romantismo dentro dos filmes gays de sexo explícito: "Tem muito mais beijo na boca e carinho pós-coito que muita comédia romântica adolescente".
Se na "pornosfera" heterossexual a mulher é vista como um objeto manipulável, a realidade mostra que talvez fosse esse um desejo escondido dos homens. Desejo, ainda bem, não de todo realizado, pois as exigências de uma mulher hoje a levam para bem longe de ser uma batedeira. Já entre os gays, o sonho de romance nos filmes pornôs nos faz acordar para uma realidade: queremos amar. Nem sempre é fácil. Muitas vezes, não sabemos como, e, por isso, nos resta o sexo.

Vitor Angelo é jornalista e roteirista e escreve quinzenalmente nesta coluna. vitor@folhasp.com.br

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